MetaMatemática

A Ciência de enxergar o que os outros não veem

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O ensino da MetaMatemática deve ocorrer no primeiro contato da criança com a Matemática, posto que constitui um dos campos mais fascinantes do conhecimento humano por investigar não apenas os objetos matemáticos, mas também os fundamentos, limites, significados, linguagens e estruturas que tornam possível o próprio pensamento matemático. Mais do que estudar números, formas ou equações, a MetaMatemática procura compreender como a Matemática produz conhecimento, quais são suas bases científicas e de que maneira seus instrumentos podem revelar padrões invisíveis à observação comum. Sob essa perspectiva, a MetaMatemática pode ser compreendida como a ciência de enxergar o que os outros não veem, pois permite identificar estruturas ocultas, relações profundas e regularidades presentes nos fenômenos físicos, sociais, psicológicos e culturais. O presente artigo discute a evolução histórica da MetaMatemática, seus fundamentos científicos, seus enfoques experimentais, suas aplicações contemporâneas e sua relevância para a Educação Básica. Também são apresentadas propostas pedagógicas e estudos de caso relacionados aos desafios enfrentados por adolescentes na contemporaneidade.

Evolução Histórica da MetaMatemática

A busca por compreender os fundamentos da Matemática acompanha a humanidade desde a Antiguidade. Os pitagóricos já defendiam que os números constituíam a essência do universo, resumida na célebre máxima de que “o número é a medida de todas as coisas” (PITÁGORAS, apud PONTES, 2023). Essa concepção inaugurou uma tradição intelectual segundo a qual a realidade pode ser compreendida por estruturas matemáticas. Desde então, a Matemática passou a ser vista não apenas como técnica de cálculo, mas como linguagem privilegiada para interpretar o mundo.

Na Grécia clássica, Platão aprofundou essa visão ao sustentar que os objetos matemáticos pertencem a uma realidade inteligível superior ao mundo sensível. Aristóteles, por sua vez, procurou explicar os mecanismos lógicos que sustentam a demonstração matemática. Essa dualidade entre abstração e experiência marcou profundamente a história da filosofia da Matemática. O debate permanece vivo até os dias atuais.

Durante os séculos XVII e XVIII, matemáticos como Isaac Newton e Gottfried Leibniz expandiram o alcance da Matemática ao formular o cálculo diferencial e integral. A partir desse momento, tornou-se evidente que estruturas matemáticas podiam descrever fenômenos naturais invisíveis à observação imediata. O movimento dos planetas, a propagação da luz e o comportamento dos fluidos passaram a ser compreendidos por meio de modelos matemáticos. Dessa forma, consolidou-se a ideia de que a Matemática revela dimensões ocultas da realidade.

No século XIX, surgiram novas preocupações acerca dos fundamentos matemáticos. Georg Cantor desenvolveu a teoria dos conjuntos, enquanto David Hilbert propôs um programa destinado a formalizar toda a Matemática. Essas iniciativas impulsionaram o nascimento da MetaMatemática moderna. O objetivo passou a ser investigar a consistência, a completude e os limites dos sistemas matemáticos.

A grande transformação ocorreu no século XX com Kurt Gödel. Em seus famosos Teoremas da Incompletude, Gödel demonstrou que sistemas formais suficientemente complexos não podem provar todas as verdades matemáticas sobre si mesmos (GÖDEL, 1931). Essa descoberta revolucionou a filosofia da Matemática. Pela primeira vez, tornou-se evidente que existem limites inerentes ao conhecimento formal.

Fundamentos Científicos da MetaMatemática

A MetaMatemática investiga a Matemática como objeto de estudo. Diferentemente da Matemática tradicional, que busca resolver problemas internos, a MetaMatemática procura compreender os mecanismos que tornam possível a construção desses problemas. Ela analisa conceitos como verdade, demonstração, consistência e significado. Nesse sentido, funciona como uma espécie de “Matemática da Matemática”.

Segundo Pontes (2023), a formação do pensamento matemático exige muito mais do que memorização de regras e procedimentos. O autor argumenta que a compreensão profunda dos conceitos é condição indispensável para o desenvolvimento da proficiência matemática. Tal posição converge com as diretrizes internacionais de educação matemática que valorizam a compreensão em detrimento da repetição mecânica.

Uma das contribuições mais relevantes da obra Prolegômenos à Nova Matemática é a valorização do processo de matematização. Para Pontes (2023), matematizar consiste em transformar fenômenos da realidade em estruturas matemáticas capazes de serem analisadas racionalmente. O processo vai muito além da simples modelagem matemática. Ele envolve a identificação de padrões, critérios e relações ocultas nos fenômenos observados.

A MetaMatemática também se relaciona com a semântica matemática. Rudolf Carnap contribuiu significativamente para esse debate ao investigar os fundamentos da linguagem lógica. Questões relativas ao significado dos símbolos e à construção da verdade matemática passaram a ocupar posição central na filosofia contemporânea da Matemática.

Outro aspecto relevante refere-se à articulação entre MetaMatemática e Metafísica. Embora frequentemente negligenciada em abordagens tradicionais, a dimensão metafísica permite refletir sobre a natureza dos objetos matemáticos e suas múltiplas interpretações. Pontes (2023) argumenta que a Metafísica e a MetaMatemática figuram entre as ferramentas mais importantes do trabalho matemático avançado.

Perspectivas Experimentais e Aplicações da MetaMatemática

A MetaMatemática não se limita à reflexão teórica. Ela possui aplicações práticas em áreas como inteligência artificial, ciência de dados, engenharia, medicina e psicologia. Em todos esses campos, a capacidade de identificar padrões ocultos representa vantagem estratégica. A MetaMatemática fornece os instrumentos conceituais necessários para essa identificação.

Na inteligência artificial, algoritmos de aprendizado de máquina dependem da descoberta de regularidades invisíveis em grandes volumes de dados. Esse processo pode ser interpretado como uma forma sofisticada de matematização da realidade. O sistema aprende a enxergar estruturas que escapam à percepção humana imediata. Assim, a MetaMatemática oferece fundamentos epistemológicos para compreender o funcionamento desses modelos.

Na medicina, a identificação precoce de doenças depende frequentemente da análise de padrões estatísticos imperceptíveis ao olhar clínico convencional. Modelos matemáticos são capazes de detectar correlações complexas entre sintomas, exames e fatores de risco. A MetaMatemática ajuda a compreender por que tais modelos funcionam e quais são seus limites. Trata-se de uma contribuição decisiva para a medicina baseada em evidências.

No campo das ciências sociais, fenômenos como violência, desigualdade e mobilidade social podem ser estudados mediante estruturas matemáticas. A matematização desses problemas permite revelar relações causais ocultas. Dessa maneira, decisões públicas tornam-se mais fundamentadas. A MetaMatemática amplia a qualidade dessas interpretações.

Segundo Pontes (2023), o pensamento complexo deve substituir a visão excessivamente linear do ensino tradicional. O autor defende que a realidade é multidimensional e exige abordagens interdisciplinares capazes de integrar Matemática, Filosofia, História, Psicologia e outras áreas do conhecimento.

Relevância da MetaMatemática para a Educação Básica

A Educação Básica enfrenta atualmente desafios significativos relacionados à aprendizagem matemática. Avaliações nacionais e internacionais indicam baixos níveis de proficiência entre estudantes. Muitos alunos conseguem memorizar procedimentos sem compreender os conceitos subjacentes. Essa dificuldade limita a transferência do conhecimento para situações reais.

Pontes (2023) critica a predominância da memorização e do rigor formal excessivo na formação matemática. Para o autor, o ensino deve priorizar a compreensão, a criatividade e a capacidade de matematizar situações concretas. O estudante precisa aprender a pensar matematicamente antes de aprender a reproduzir algoritmos.

A BNCC enfatiza o desenvolvimento de competências e habilidades. Nesse contexto, a MetaMatemática oferece uma estrutura conceitual capaz de aproximar a Matemática dos problemas reais vivenciados pelos estudantes. O conhecimento deixa de ser um conjunto de fórmulas desconectadas. Passa a ser um instrumento para compreender o mundo.

O conceito de Estudante Matematicamente Proficiente apresentado por Pontes (2023) encontra respaldo em documentos internacionais sobre educação matemática. O aluno proficiente é aquele que consegue modelar situações, formular hipóteses, interpretar resultados e tomar decisões fundamentadas.

Além disso, a MetaMatemática favorece o desenvolvimento do pensamento crítico. O estudante aprende a questionar pressupostos, identificar inconsistências e avaliar argumentos. Essas competências são essenciais para a formação cidadã em uma sociedade cada vez mais orientada por dados e algoritmos.

Propostas de Ensino e Estudos de Caso na Educação Básica

Uma proposta metamatemática para a Educação Básica deve partir de problemas concretos. Em vez de apresentar fórmulas prontas, o professor pode incentivar os alunos a identificar padrões presentes em situações do cotidiano. O objetivo é desenvolver a habilidade de matematizar. Essa abordagem aumenta significativamente o engajamento dos estudantes.

Outra estratégia consiste na utilização do Mapa do Ensino da Matemática (MEM), proposto por Pontes (2023). O modelo sugere que cada conceito seja estudado segundo seis dimensões: História, Ontologia, Metafísica, Etiologia, Teleologia e Dialética. Isso favorece uma compreensão muito mais ampla do objeto matemático.

A História da Matemática também pode desempenhar papel importante. Ao conhecer os problemas enfrentados por matemáticos ao longo dos séculos, os estudantes percebem que o conhecimento não surge pronto. Essa percepção reduz a ansiedade diante do erro. Além disso, fortalece a motivação para aprender.

Projetos interdisciplinares constituem outra possibilidade promissora. Questões relacionadas à sustentabilidade, mobilidade urbana, saúde e tecnologia podem ser analisadas mediante ferramentas matemáticas. O aluno passa a perceber a utilidade prática dos conceitos estudados. Isso contribui para a formação de uma aprendizagem significativa.

Finalmente, a MetaMatemática estimula a criatividade intelectual. Em vez de buscar apenas respostas corretas, os estudantes aprendem a formular perguntas relevantes. Essa mudança de perspectiva representa um dos pilares do pensamento científico contemporâneo.

Cinco Aplicações da MetaMatemática para Desafios Adolescentes

Esta seção apresenta cinco aplicações da MetaMatemática para problemas típicos da adolescência, com linguagem e situações próximas ao universo jovem. O objetivo é demonstrar que a postura de “enxergar o que os outros não veem” — essência da MetaMatemática — pode ser uma ferramenta poderosa para que o adolescente compreenda, modele e enfrente os desafios emocionais e sociais de sua vida.

  • Ansiedade e Depressão: quando os números ajudam a entender o que você sente

Às vezes a ansiedade parece tão enorme que a gente não consegue nem nomear o que está sentindo — é só aquela sensação pesada de que tudo vai dar errado. A MetaMatemática propõe fazer exatamente isso: dar nome às coisas, medir o que parece imensurável. Você pode criar, com a ajuda de um adulto de confiança ou de um terapeuta, uma escala própria para medir a sua ansiedade: de 0 a 10, o quão intensa foi a sensação em cada situação do dia. Pontes (2023, p. 167) ensina que “a matematização de subjetividades” é possível — ou seja, mesmo o que parece puramente emocional pode ganhar uma representação matemática que nos ajuda a enxergar padrões que antes estavam invisíveis.

Com dados registrados ao longo de algumas semanas, dá para criar um gráfico da ansiedade e identificar: em que dias ela é maior? O que aconteceu antes dos picos? Tem algum padrão que se repete? Isso não é tentar transformar sentimento em conta — é usar a ferramenta matemática para enxergar o que você não conseguiria enxergar no meio da bagunça emocional. Serralta et al. (2010) demonstraram que a equivalência semântica — ou seja, garantir que todos estamos falando da mesma coisa quando usamos uma palavra — é fundamental para medir experiências subjetivas com confiabilidade. Isso significa que, ao criar sua escala de ansiedade, você está fazendo MetaMatemática de verdade: definindo critérios, estabelecendo uma métrica e analisando padrões.

E sabe o que é mais poderoso nisso tudo? Quando você começa a ver no gráfico que a ansiedade não é constante, que ela sobe e desce, que há situações que a diminuem — você percebe que ela não é maior do que você. A MetaMatemática revela o que estava escondido: que até as emoções têm estrutura, e que entender essa estrutura é o primeiro passo para agir sobre ela. Pontes (2023, p. 162) ensina que a “importância da compreensão” é central no aprendizado matemático — e o mesmo vale para a compreensão de si mesmo: quando você entende o padrão, você deixa de ser escravo dele. Morin (s.d.) diz que “são os erros que nos fazem crescer”, e a MetaMatemática nos ensina a analisar os erros — os nossos próprios — com rigor e sem julgamento.

  • Bullying e Mobbing: a Matemática que expõe a injustiça

O bullying é uma das experiências mais dolorosas da adolescência, e às vezes parece impossível provar que ele está acontecendo — afinal, quem pratica sempre tem uma desculpa. Mas a MetaMatemática oferece uma ferramenta poderosa: a documentação sistemática. Pontes (2023, p. 102-106) dedica uma seção inteira à “Síndrome do Bullying”, apontando que esse fenômeno precisa ser diagnosticado com critérios claros para poder ser enfrentado. Se você registrar cada episódio — data, hora, o que aconteceu, quem estava presente, qual foi o impacto emocional numa escala de 0 a 10 — você transforma uma experiência invisível em dados visíveis, que podem ser apresentados à direção, aos pais ou a um conselheiro.

A lógica por trás disso é puramente metamatemática: você está criando um modelo da realidade que permite enxergar padrões que o agressor tentou manter invisíveis. Posamentier e Lehmann (2013) analisam como erros e paradoxos na Matemática — situações em que o óbvio esconde uma armadilha — revelam verdades que só quem olha com atenção consegue ver. O mesmo acontece com o bullying: para quem está de fora, os episódios isolados parecem “brincadeiras”; mas quando você os mapeia no tempo e no espaço, a estrutura do abuso se torna inegável. Pontes (2023) propõe o Laboratório de Matemática como espaço para resolver “problemas reais da comunidade” — e o bullying é, sem dúvida, um problema real e urgente que demanda soluções criativas.

Além de documentar, a MetaMatemática pode ajudar a analisar as dinâmicas de poder envolvidas no bullying. Quem são os observadores passivos? Em que situações o grupo apoia ou condena o agressor? Há momentos do dia ou da semana em que o bullying é mais frequente? Essas perguntas, respondidas com dados, revelam a estrutura social do fenômeno — e revelações estruturais são sempre metamatemáticas. Devore e Berk (2012) ensinam que a análise de variáveis discretas e contínuas permite identificar padrões em dados aparentemente aleatórios, o que se aplica diretamente à análise de episódios de bullying. Quando você usa a MetaMatemática para expor a injustiça, você está fazendo exatamente o que a ciência faz de melhor: tornando visível o que estava escondido.

  • Exclusão Social: modelando as redes de pertencimento

Sentir que você não pertence a nenhum grupo é uma das piores sensações da adolescência. Mas a MetaMatemática pode te ajudar a enxergar as redes sociais de uma maneira completamente nova. A teoria dos grafos — uma ferramenta da Matemática que estuda conexões — pode ser usada para mapear quem se fala com quem na sua turma, quem é o centro das conversas e quem fica nas margens. Quando você faz esse mapeamento, você percebe que a exclusão não é um fenômeno natural ou inevitável: ela tem uma estrutura, tem pontos de entrada e de saída, e pode ser modificada. Pontes (2023, p. 150-152) descreve o Pensar Complexo como a habilidade de enxergar “múltiplas dimensões e interligações”, o que é exatamente o que a análise de redes sociais oferece.

A ideia de que “todo mundo é amigo de todo mundo” é um mito que a MetaMatemática destrói facilmente. Dieudonné (1985) observa que a criatividade matemática não é privilégio de nenhuma classe social — mas a Educação Básica muitas vezes reproduz estruturas de exclusão ao valorizar apenas um tipo de inteligência. Quando você usa a teoria dos grafos para mapear sua turma, você pode descobrir que há subgrupos que nunca interagem, que há estudantes que funcionam como “pontes” entre grupos distintos e que há pessoas cujo isolamento é estrutural, não pessoal. Essa descoberta é metamatemática no sentido mais profundo: ela revela que o que parecia uma questão individual — “eu não tenho amigos” — é na verdade um fenômeno coletivo com estrutura mensurável e modificável.

E o mais bonito é que, quando você vê a estrutura, você tem poder sobre ela. Você pode decidir ser uma “ponte” entre grupos, pode identificar quem precisa de uma conexão e propor atividades que criem novos laços. A MetaMatemática aqui não é só uma ferramenta de análise — é uma ferramenta de ação. Lins (2012) ensina que cada sujeito produz significados matemáticos únicos a partir de sua história pessoal, o que significa que cada estudante traz para a sala de aula uma perspectiva irreproduzível — e que a exclusão social é, também, uma forma de exclusão epistêmica ou de descrédito intelectual, que nos priva de perspectivas valiosas. Pontes (2023, p. 100) aborda a “Estética” como dimensão do pensar matemático, lembrando que a beleza de uma solução matemática está muitas vezes em revelar conexões inesperadas — assim como a beleza de uma amizade está em descobrir o que você tem em comum com quem parecia tão diferente.

  • Solidão: quando você é o único que se vê de fora

A solidão na adolescência é diferente de simplesmente estar sozinho: é a sensação de que ninguém te entende, de que você está sempre “de fora” mesmo quando está no meio de todo mundo. Mas sabe o que é curioso? Essa capacidade de se ver de fora — de observar a si mesmo e ao grupo como se você fosse um pesquisador — é exatamente a postura metamatemática. Pontes (2023, p. 46) descreve a MetaMatemática como a ferramenta que permite olhar para a Matemática “de fora”, vendo o que quem está dentro não consegue ver. Quem se sente solitário frequentemente tem essa habilidade já desenvolvida — só que ainda não sabe que ela é valiosa.

A MetaMatemática pode transformar a solidão em um recurso intelectual. Se você sente que observa o grupo de fora, use isso: registre o que você observa, identifique padrões no comportamento coletivo, faça hipóteses sobre o que está acontecendo nas interações que os outros não percebem. Poincaré (1914) afirmou que as grandes descobertas matemáticas acontecem quando alguém consegue ver o que os outros não veem — e isso requer, justamente, um certo distanciamento do óbvio. Burger e Starbird (2010, p. 5) descrevem o processo de aprendizado matemático como “caminhar por uma floresta no escuro”, aceitando a incerteza como condição do progresso — o que ressoa diretamente com a experiência da solidão adolescente, que também é uma caminhada no escuro.

O mais importante é perceber que a solidão pode ser temporária e que a capacidade de “se ver de fora” é uma das mais raras e valiosas habilidades humanas. Hess (2005) demonstrou que o contexto emocional influencia profundamente a aprendizagem, o que significa que o adolescente solitário precisa encontrar um ambiente que valorize sua perspectiva única. A MetaMatemática oferece exatamente esse ambiente: um espaço em que o questionamento, o estranhamento e a busca por padrões invisíveis são não apenas tolerados, mas celebrados. Pontes (2023, p. 94) lembra que “os nossos jovens nunca odiaram, não odeiam e jamais odiarão as Matemáticas” — eles odeiam a obrigatoriedade da memorização. A MetaMatemática libera o jovem para amar o que ele naturalmente ama: descobrir o que está escondido.

  • Crise de Identidade: Quem sou eu? A MetaMatemática como Bússola

“Quem sou eu?” é a pergunta central da adolescência, e ela é, em si, uma pergunta metamatemática: é a pergunta de quem olha para si mesmo de fora e questiona os axiomas que definem sua identidade. Pontes (2023, p. 145) descreve o pensar matemático como a capacidade de “matematizar” qualquer problema — e a identidade é o problema mais complexo e fascinante que um ser humano pode enfrentar. A MetaMatemática não tem uma resposta para “quem sou eu?”, mas oferece uma metodologia: defina os critérios, identifique as variáveis, analise os padrões, e esteja sempre disposto a revisar suas hipóteses quando os dados não confirmam o modelo.

A crise de identidade é, matematicamente falando, um problema de indecidibilidade: como Gödel demonstrou, há verdades que não podem ser provadas dentro do sistema que as contém. Da mesma forma, a questão “quem sou eu?” não pode ser respondida apenas a partir do interior da própria identidade — ela exige uma perspectiva externa, metamatemática. Ruffino (2013; 2022) analisa verdades contingentes a priori — verdades que são necessárias em um determinado contexto, mas que poderiam ser diferentes. A identidade adolescente é exatamente assim: ela parece absolutamente necessária (“eu sou assim e não posso ser diferente”), mas é, na verdade, contingente e revisável. Reconhecer isso não é fraqueza — é sabedoria metamatemática.

A MetaMatemática oferece ao adolescente em crise de identidade um presente inestimável: a permissão para não saber. Pontes (2023, p. 27) cita Burger e Starbird (2010, p. 5) ao afirmar que “devemos aprender a não deixar que esse medo compreensível nos paralise intelectualmente; devemos dar um passo”. A crise de identidade é o momento em que o adolescente está exatamente nesse lugar — paralisado diante do escuro. Mas a MetaMatemática ensina que é só tropeçando em “muitos pequenos passos intelectuais” que se faz progresso. Morin (s.d.) complementa ao lembrar que “são os erros que nos fazem crescer” — e a crise de identidade, vista com olhos metamatemáticos, não é um erro a ser corrigido, mas um dado a ser analisado, uma hipótese a ser testada e um caminho a ser percorrido, um passo de cada vez.

Considerações Finais

Este essay procurou demonstrar que a MetaMatemática — a ciência de enxergar o que os outros não veem — não é só uma disciplina reservada a especialistas, mas uma postura intelectual que pode e deve ser cultivada desde a Educação Básica. Percorrendo sua evolução histórica, suas perspectivas científicas e filosóficas, seus enfoques experimentais, suas aplicações práticas e sua relevância pedagógica, chegamos à conclusão de que a MetaMatemática é, em última análise, a própria essência do pensar matemático genuíno — aquela dimensão reflexiva que olha para dentro das estruturas, questiona os fundamentos e revela o que estava invisível.

A obra Prolegômenos à Nova Matemática (PONTES, 2023) tem a premissa da mais completa tentativa nacional de articular a MetaMatemática com uma proposta pedagógica concreta para a Educação Básica. O Mapa do Ensino da Matemática (MEM), o conceito de Estudante Matematicamente Proficiente (EMP), o Ente Contingente a priori de re (ECPR) e a crítica ao ensino sistemático e memorístico são contribuições de alto valor para o campo da Educação Matemática. Complementadas pela vasta literatura internacional sobre pensamento matemático, proficiência, modelagem e linguagem matemática, essas propostas apontam um caminho concreto para a superação da crise da Educação Matemática no Brasil.

Por fim, a aplicação da MetaMatemática aos desafios adolescentes — ansiedade, bullying, exclusão, solidão e crise de identidade — demonstra que a postura de “enxergar o que os outros não veem” transcende a Matemática como disciplina escolar e se torna uma ferramenta de vida. Como afirma Pontes (2023, p. 213): “Estudar e aprender Matemática, por muito tempo foi um frenesi marcadamente prazeroso, instigador e audacioso. No mínimo, essas qualidades precisam de instantânea restauração.” A MetaMatemática, ao revelar a beleza e o poder da Matemática vista por dentro, é a chave para essa restauração. Vivat, a Nova Matemática!

Referências

BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2018.

CARNAP, Rudolf. The Logical Syntax of Language. London: Routledge, 1937.

DUVAL, Raymond. Semiosis and Human Thought. New York: Peter Lang, 1995.

GÖDEL, Kurt. On Formally Undecidable Propositions of Principia Mathematica and Related Systems. New York: Dover Publications, 1992.

HILBERT, David. Foundations of Geometry. La Salle: Open Court, 1971.

LINS, Romulo Campos. O Modelo dos Campos Semânticos e Educação Matemática. Rio Claro: UNESP, 2012.

MORIN, Edgar. Introdução ao Pensamento Complexo. Porto Alegre: Sulina, 2015.

PONTES, Acelino. Prolegômenos à Nova Matemática. Fortaleza: Scientia Publishers, 2023.

SMALL, Marian. Teaching Mathematical Thinking. New York: Teachers College Press, 2017.

TEPEL, Susanne. Logik trifft Logos: Mathematik als inspirierendes Werkzeug in der Pastoral. Tübingen: Katholische Akademie Rottenburg-Stuttgart, 2022.

TIMMONS, Franklin et al. Mathematical Modeling and Applications. New York: Wiley, 2007.

TRANJAN, Tiago. A Sintaxe Lógica da Linguagem de Rudolf Carnap. Dissertação (Mestrado em Filosofia). Universidade de São Paulo, São Paulo, 2005.

Acelino Pontes

Formação Profissional: Bancário/contabilista (Banco do Nordeste do Brasil S.A. – Curso de Aprendizagem Bancária – CAB, Fortaleza-CE), Técnico em Rádio, Televisão e Eletrônica (Instituto Monitor, São Paulo).

Formação Acadêmica: Medicina (Fortaleza-CE, Berlim/Alemanha, Munique/Alemanha, Lisboa e Colônia/Alemanha), Filosofia (Munique/Alemanha, Colônia/Alemanha e Fortaleza-CE), Psicologia (Colônia/Alemanha), Direito (Fortaleza-CE) e Matemática (Fortaleza-CE).

Formação Coadjuvante: Biologia (Colônia/Alemanha), Sociologia (Colônia/Alemanha), Física (Colônia e Munique/Alemanha), Química (Colônia e Munique/Alemanha), Teologia (Fortaleza-CE e Colônia/Alemanha) e Medicina Veterinária (Munique/Alemanha).

Especializações

Medicina: Medicina Interna, Psicossomática, Hipnose Médica, Treino Autógeno e Informática Médica (Alemanha).

Psicologia: Psicanálise, Psicoterapia, Sexologia e Terapia Comportamental (Alemanha).

Filosofia: Filosofia da Matemática (UECE) e Filosofia do Direito (UECE).

Pós-Graduação: Curso de Doutorado em Neurologia (Pesquisa Cerebral), Max-Planck-Institut für Hirnforschung, Colônia/Alemanha, Curso de Doutorado em Medicina Interna/Psicossomática, Rheinische Friedrich-Wilhelms-Universität Bonn (Bonn/Alemanha), Curso de Doutorado em Filosofia, Universität zu Köln (Colônia/Alemanha).


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