Os conceitos de número e unidade na primeira tradução vernacular
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A primeira tradução completa e vernacular da obra Os Elementos de Euclides foi feita no século XVI pelo matemático Niccolò Fontana, mais conhecido como Tartaglia. O autor considerava o texto de Euclides propício ao ensino e sua tradução para o italiano visava uma maior difusão da obra. Embora a tradução de Tartaglia não seja considerada de grande importância pelos estudiosos da obra de Euclides do século XX, mostraremos, através das traduções e da identificação de fontes e, principalmente, pela análise conceitual, que em sua época a obra contribuiu fortemente para as discussões sobre o status ontológico do número e as distinções entre o discreto e o contínuo e, em última instância, entre as novas fronteiras dos conhecimentos teóricos e práticos na matemática.
1. Panorama Histórico da Tradução Vernacular dos Elementos de Euclides
A primeira tradução vernacular dos Elementos de Euclides, realizada no contexto europeu medieval, representou uma mudança paradigmática no acesso ao conhecimento matemático. Até então, a obra circulava principalmente em grego e árabe, restringindo seu alcance a círculos acadêmicos restritos. Com a tradução para o latim vernacular por Adelardo de Bath no século XII, os conceitos de número e unidade tornaram-se acessíveis aos estudiosos europeus sem domínio do grego clássico. Segundo Gow (1884), essa versão abriu caminho para a assimilação dos princípios euclidianos no Ocidente cristão medieval.
O conceito de número como conjunto de unidades indivisíveis é apresentado no Livro VII dos Elementos, cuja definição original afirma: “Número é uma multidão composta de unidades” (Euclides, Elementa, Def. 2, Livro VII). Essa definição impactou profundamente o entendimento medieval sobre a aritmética, sendo posteriormente discutida por autores como Boécio e Campano de Novara. Conforme Heath (1956), os tradutores se depararam com o desafio semântico de transferir conceitos gregos com precisão para os idiomas europeus emergentes. Esse processo linguístico e filosófico teve influência duradoura sobre o ensino da matemática nos séculos subsequentes.
No Renascimento, a circulação de traduções vernáculas foi catalisada pela imprensa, como exemplificado pela versão italiana de Tartaglia (1543). Tais traduções ajudaram a consolidar os conceitos fundamentais de número e unidade, articulando-os com o pensamento escolástico e renascentista. Como afirma Kline (1972), a apropriação renascentista dos Elementos demonstrou que a matemática não era apenas um saber instrumental, mas também ontológico e lógico. A historicidade da tradução, portanto, é inseparável da compreensão do conteúdo filosófico que ela transmitiu.
2. Fundamentos Epistêmicos dos Conceitos de Número e Unidade
Os conceitos de número e unidade nos Elementos remetem a uma concepção pitagórica e platônica do ser. Para Euclides, a unidade não é um número, mas o princípio do número — o que se observa em sua distinção ontológica entre “um” e “muitos”. Segundo Mugler (1956), essa distinção funda o entendimento matemático grego da multiplicidade como derivada da unidade primordial. A tradução medieval preservou essa distinção, como se nota na tradução de Adelardo: “unum non est numerus, sed principium numeri”.
A abordagem euclidiana distingue-se da moderna aritmética cardinal, na qual o número um já é considerado um número. Segundo Boyer (1991), essa divergência evidencia a transição histórica entre uma matemática qualitativa e uma quantitativa. A noção de unidade como fundamento lógico da contagem era compatível com as cosmovisões filosóficas da Antiguidade e da Idade Média. Tais ideias perduraram por séculos e só foram deslocadas pela formalização aritmética moderna com autores como Peano e Frege.
A filosofia dos números nos Elementos influenciou diretamente a tradição matemática ocidental, inclusive nos séculos posteriores à tradução vernacular. Como aponta Jacob Klein (1968), o conceito grego de número era mais próximo da estrutura do ser do que da medida quantitativa moderna. Essa concepção metafísica teve implicações profundas na didática da matemática no Ocidente. A partir da tradução vernacular, essa metafísica do número foi incorporada em tratados escolares e manuais de ensino por toda a Europa.
3. Enfoques Experimentais e Aplicações Científicas
Embora os Elementos sejam uma obra de caráter lógico-dedutivo, os conceitos de número e unidade tiveram repercussões práticas em atividades experimentais e tecnológicas. A aritmética euclidiana foi adaptada para aplicações comerciais e astronômicas, conforme atestado em manuscritos medievais sobre o cálculo com números romanos e indo-arábicos. Segundo Ifrah (2000), a apropriação desses conceitos pelos mercadores e astrônomos ocorreu graças à clareza conceitual promovida pelas traduções vernáculas. Os algoritmos rudimentares para multiplicação e divisão partiam do entendimento de número como coleção de unidades.
A presença dos conceitos euclidianos na arquitetura, na música e na engenharia medieval é também relevante. Conforme Eco (1988), o pensamento matemático neopitagórico, embutido nos Elementos, inspirou proporções harmônicas nas catedrais góticas e sistemas musicais. O número e a unidade tornaram-se, assim, elementos fundamentais de sistemas de proporção, medida e simetria. A tradução vernacular dos Elementos foi essencial para a transmissão desses conceitos a mestres de obras e artistas da época.
Nos séculos XV e XVI, os tratados matemáticos baseados em Euclides tornaram-se manuais técnicos para a prática científica e artesanal. Segundo Rose (1975), a difusão das traduções permitiu que conceitos antes abstratos fossem operacionalizados em contextos empíricos. A noção de unidade como base da mensuração foi fundamental para o desenvolvimento da mecânica e da balística. Assim, as aplicações científicas dos conceitos euclidianos de número e unidade revelam sua versatilidade e profundidade epistemológica (Pontes, 2023).
4. Relevância Educacional na Educação Básica
A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) propõe o desenvolvimento de competências que envolvem raciocínio lógico e construção de conceitos fundamentais, como número e medida. Nesse contexto, os conceitos de número e unidade, conforme articulados nos Elementos, fornecem uma estrutura formativa relevante para a Educação Básica. Segundo Lorenzato (2006) e Pontes (2023), é essencial introduzir noções históricas e conceituais para promover a compreensão crítica dos saberes matemáticos. A abordagem euclidiana pode ser empregada como eixo para o ensino investigativo e relacional da matemática.
A utilização de fontes históricas, como os Elementos, favorece a compreensão do desenvolvimento da matemática como construção humana. Para Fiorentini, Lorenzato (2009) e Pontes (2023), o ensino deve ultrapassar a mera instrumentalização e promover o pensamento reflexivo e contextualizado. A introdução da ideia de número como uma multiplicidade de unidades permite, por exemplo, explorar a construção dos números naturais com base em operações concretas. Tal perspectiva pode ser mobilizada por meio de atividades com material manipulativo, textos históricos e modelagem.
Além disso, o estudo dos conceitos euclidianos permite integrar a matemática com outras áreas do conhecimento, como filosofia, história e linguística. Segundo Costa e D’Ambrósio (2012), essa abordagem interdisciplinar reforça a função cultural e social da matemática no currículo escolar. Enquanto e sob a ótica de Pontes (2023), o número e a unidade, como noções filosóficas e matemáticas, podem ser discutidos em projetos interdisciplinares sobre linguagem, lógica, metafísica e ontológica. Isso demonstra a atualidade e relevância dos Elementos de Euclides no campo educacional.
5. Personalidades e Contribuições Intelectuais ao Tema
A influência dos Elementos na matemática ocidental é frequentemente atribuída à tradição de comentadores e tradutores. Adelardo de Bath, por exemplo, é considerado por Burnett (1997) como o primeiro grande mediador entre o pensamento grego e a ciência europeia latina. Sua tradução dos Elementos teve importância semelhante à de sua introdução ao pensamento árabe e às matemáticas indianas. Ao preservar conceitos como número e unidade, contribuiu para a formação do pensamento matemático europeu.
Mais tarde, figuras como Campano de Novara e Regiomontanus continuaram essa tradição de tradução, ensino e adaptação dos Elementos à prática científica e pedagógica. Segundo Clagett (1959), esses autores não apenas traduziram, mas também comentaram e reinterpretaram Euclides à luz das necessidades e contextos locais. Essa linhagem intelectual favoreceu o desenvolvimento de métodos de ensino baseados em definições e demonstrações, em contraste com a mera repetição de algoritmos. Os conceitos de número e unidade serviram como pilares para a construção desse novo paradigma didático.
Na contemporaneidade, estudiosos como Ian Mueller (1981) e Wilbur Knorr (1975) contribuíram para a reinterpretação filosófica e histórica dos conceitos euclidianos. Segundo Knorr, as definições de número e unidade em Euclides devem ser vistas não apenas como descrições matemáticas, mas como construções lógicas rigorosas em uma teoria formal dedutiva. Essas leituras modernas ajudam a reforçar a importância desses conceitos tanto na pesquisa acadêmica quanto no ensino da matemática (Pontes, 2023). Assim, as contribuições intelectuais ao longo dos séculos revelam a persistente relevância de Euclides no pensamento matemático global.
Referências Bibliográficas
BOYER, Carl B. História da Matemática. São Paulo: Edgard Blücher, 1991.
BURNETT, Charles. Adelard of Bath: An English Scientist and Arabist of the Twelfth Century. London: Warburg Institute, 1997.
CLAGETT, Marshall. The Science of Mechanics in the Middle Ages. Madison: University of Wisconsin Press, 1959.
COSTA, Gláucia; D’AMBRÓSIO, Ubiratan. Educação Matemática: Da Teoria à Prática. São Paulo: Papirus, 2012.
ECO, Umberto. A Estrutura Ausente: Introdução à Semiótica. São Paulo: Perspectiva, 1988.
FIORENTINI, Dario; LORENZATO, Sérgio. Investigações em Ensino de Matemática. Campinas: Autores Associados, 2009.
GOW, James. A Short History of Greek Mathematics. Cambridge: Cambridge University Press, 1884.
HEATH, Thomas L. The Thirteen Books of Euclid’s Elements. New York: Dover, 1956.
IFRAH, Georges. Os Números: História de uma Grande Invenção. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
KLEIN, Jacob. Greek Mathematical Thought and the Origin of Algebra. Cambridge: MIT Press, 1968.
KLINE, Morris. Mathematical Thought from Ancient to Modern Times. New York: Oxford University Press, 1972.
KNORR, Wilbur R. The Evolution of the Euclidean Elements. Dordrecht: Reidel, 1975.
LORENZATO, Sérgio. O Saber Matemático no Ensino. Campinas: Autores Associados, 2006.
MUELLER, Ian. Philosophy of Mathematics and Deductive Structure in Euclid’s Elements. Cambridge: MIT Press, 1981.
ROSE, Paul Lawrence. The Italian Renaissance of Mathematics. Geneva: Droz, 1975.
PONTES, Acelino. Prolegômenos à Nova Matemática. Fortaleza: Scientia Publishers, 2023. 232 p.

Carla Bromberg
Doutora em História da Ciência (PUC/SP) com período de estágio na Universidade de Princeton (EUA), mestre em Musicologia (HUJI- Universidade Hebraica de Jerusalém- Israel).
Bacharel em Música, pianista e harpista clássica atua principalmente nos seguintes temas: História da Ciência e Música, Histórias da Ciência e da Matemática, Música e História da Arquitetura, Classificação do Conhecimento e Musicologia.
Realizou dois períodos de pós-doutorado, o primeiro sobre a relação entre som e número na música renascentista (CESIMA-PUC), e o segundo sobre os papéis da aritmética e da geometria na música (Departamento de Matemática – PUC).
Carla foi presidente da Sociedade Brasileira de Musicologia (2002-4) e (2005-7), foi pesquisadora no CESIMA (PUC/SP), e professora no Departamento de Pós-Graduação em História da Ciência (PUC/SP), na Universidade Livre de Música (atual EMESP), na Escola Municipal de Música e no curso de pós-graduação latu-sensu da Faculdade de Música Carlos-Gomes.
CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/1211163079805646
Comentários
| Aula interessante e enriquecedora muito obrigado (Abel do Rosário Sarmento) |
| Muito boa as colocações. (Claudia Maria Moro) |
| Excelente explanação. Parabéns (Cláudio Firmino Arcanjo) |
| Professor Acelino trouxe mais uma vez uma palestra excelente, pois ao trazer a professora Carla e os conceitos de números e unidade me deixou surpresa com as colocações de Tartaglia sobre suas observações sobre unidades: bois, ovelhas, rebanhos, etc. Adorei também a ideia do professor sobre como desenvolver esse tema levando os alunos e alunas a um lugar público e pedir a eles que observem unidades e o que seria “uma unidade” pra ele. (Débora Pinto dos Santos) |
| Conceitos tratados de forma bem esclarecedora (Donovan Sales de Souza) |
| Parabéns pela excelente palestra e troca de conhecimentos. Parabéns! (Flávio Maximiano da Silva Rocha) |
| Excelente palestra. Parabéns, professora! (Francisca Maria Mendes de Souza Macedo) |
| Interessante a fala da professora quando ela posiciona o número em um aspecto fenomenológico (Francisco Isidro Pereira) |
| Foram conteúdos bastante interessante. (Gracivaldo Correia Reges) |
| Parabéns pela excelente palestra, muito aprendizado, obrigado por compartilhar o conhecimento! Parabéns! (Hailton David Lemos) |
| Excelente no ponto de vista histórico e material (Ivanildo da Cunha Ximenes) |
| Sempre tive curiosidade em saber o conceito de número e unidade. Parabéns pela palestra. (Jadiel Carlos Asevedo Silva) |
| Muito desafiador esse assunto. É preciso pesquisar mais sobre o tema. Buscar conhecimentos para poder aplicar na sala de aula. (Jaqueline de Assis Carvalho) |
| Ótima palestra! Parabéns! (Jean Pierre Veronese) |
| Um espaço importante sobre o ensino da matemática, poderia até ser um horário um pouco mais estendido ou divido em dois turnos. Parabéns pela iniciativa. (Jeylson Gonçalves da Silva) |
| Excelente palestra! (Lineu da Costa Araújo Neto) |
| Parabéns professora Carla (Lucia dos Santos Bezerra de Farias) |
| Palestra com muita profundidade, são os primórdios do número. (Marcos Lengrub da Silva) |
| A matemática e suas diversas conexões e interpretações! Parabéns professora Carla Bromberg! (Maxwell Gonçalves Araújo) |
| Parabéns professora Carla! Gostaria de expressar meus sinceros agradecimentos pela brilhante palestra. A profundidade do conteúdo apresentado e a clareza na exposição contribuíram significativamente para o enriquecimento do nosso conhecimento. Muito obrigado. (Miron Menezes Coutinho) |
| Uma experiência incrível e poder ter contato com as diferenças entre números e unidades. Parabéns pela palestra professora. (Paulo Robson Pereira da Cunha) |
| Ótima palestra. (Ricardo de Carvalho Oliveira) |
| Ótima apresentação da prof. Carla e interessantes observações apontadas pelos participantes da palestra! (Rosa Elvira Quispe Ccoyllo) |